Conhecer Mato Grosso do Sul apenas por suas paisagens seria conhecer apenas uma parte da história.
Por trás dos rios transparentes de Bonito, das planícies do Pantanal, das fazendas, das cidades de fronteira e do Cerrado existe uma identidade construída pelo encontro de diferentes povos, territórios e modos de vida.
A cultura de Mato Grosso do Sul aparece na comida servida à mesa, na música, nas rodas de tereré, no artesanato, nas festas, na linguagem e até na maneira como o sul-mato-grossense recebe quem chega.
É uma identidade que carrega influências indígenas, paraguaias, pantaneiras e também de diferentes movimentos migratórios que atravessaram o estado.
A própria Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul define essa formação como resultado de uma grande mistura de costumes e tradições, com influências vindas do Paraguai, da Bolívia e de diferentes regiões brasileiras.
Para quem visita destinos como Bonito, entender um pouco dessa cultura muda também a maneira de viajar.
Porque Mato Grosso do Sul não é apenas um lugar para ver.
É um lugar para provar, ouvir, observar e compreender.
Um estado jovem com uma história muito mais antiga
Mato Grosso do Sul foi oficialmente criado em 11 de outubro de 1977, a partir da divisão do antigo estado de Mato Grosso, e instalado em 1º de janeiro de 1979.
Mas evidentemente sua história cultural começa muito antes disso.
Muito antes da divisão política, povos indígenas já ocupavam diferentes regiões do território. Depois vieram processos de colonização, expansão pecuária, conflitos, fronteiras internacionais, ferrovias e diferentes ondas migratórias.
Por isso, falar em cultura sul-mato-grossense não significa procurar uma única origem.
É justamente o contrário.
A identidade do estado foi construída em encontros.
E, em alguns lugares, esses encontros são tão presentes no cotidiano que muitas vezes o próprio morador já não percebe de onde determinado hábito veio.
Os povos indígenas estão na origem dessa história
A presença indígena é uma das bases fundamentais para compreender Mato Grosso do Sul.
Dados estaduais divulgados em 2026 apontam mais de 116 mil indígenas vivendo no estado, pertencentes a uma grande diversidade de etnias e línguas.
Entre os povos historicamente presentes estão Guarani, Kaiowá, Terena, Kadiwéu, Guató, Ofaié, Kinikinau e Atikum, cada qual com sua própria história, língua, organização social e tradições.
É importante falar em culturas indígenas, no plural.
Não existe uma única cultura indígena sul-mato-grossense.
São povos diferentes, com conhecimentos, artes, formas de organização e relações com o território próprias.
Ainda assim, sua presença atravessa a história do estado e pode ser percebida na alimentação, no artesanato, no conhecimento sobre plantas, no uso de ingredientes regionais, nas línguas e em inúmeras formas de relação com a terra.
Fronteiras políticas nem sempre são fronteiras culturais
Olhar para o mapa ajuda a entender outro elemento fundamental dessa identidade.
Mato Grosso do Sul faz fronteira com Paraguai e Bolívia.
No caso do Paraguai, a proximidade geográfica se transformou em uma influência cultural extremamente presente no cotidiano.
Em cidades próximas da fronteira, essa relação é ainda mais evidente, mas muitos costumes se espalharam por praticamente todo o estado.
O resultado está na música.
Na comida.
No vocabulário.
E talvez em um dos símbolos mais conhecidos do cotidiano sul-mato-grossense:
o tereré.
O Paraguai está muito presente na mesa sul-mato-grossense
Chipa, sopa paraguaia, locro e tereré são alguns exemplos de elementos associados à cultura paraguaia que passaram a fazer parte do cotidiano de Mato Grosso do Sul. A própria Fundação de Turismo do estado destaca essa influência na culinária regional.
Para quem vive em Mato Grosso do Sul, comer uma chipa ou participar de uma roda de tereré pode parecer algo absolutamente comum.
E talvez seja justamente aí que a cultura se revela com mais força.
Ela deixa de ser algo apresentado somente em museus e festas tradicionais para fazer parte da rotina.
A chipa está em padarias e estabelecimentos comerciais.
O tereré aparece em casas, empresas, praças e encontros entre amigos.
A sopa paraguaia está na mesa de famílias que muitas vezes já nem a enxergam como um elemento estrangeiro.
Essas tradições atravessaram a fronteira e passaram a integrar a identidade regional.
A influência paraguaia também pode ser ouvida
A relação entre Mato Grosso do Sul e Paraguai não termina na gastronomia.
Ela também está na música.
Polca paraguaia, guarânia e chamamé aparecem entre as manifestações musicais que ajudaram a formar a cultura do estado.
Há ainda o sapucay, o grito tradicional associado a celebrações e músicas paraguaias, que também se incorporou a diferentes manifestações culturais da região.
Em determinados lugares de Mato Grosso do Sul, basta começar uma música para que essas referências apareçam naturalmente.
Não porque alguém esteja tentando representar uma tradição para turistas.
Mas porque ela continua viva.
O Pantanal também moldou uma maneira própria de viver
Outra influência inseparável da identidade sul-mato-grossense está no Pantanal.
A relação com as águas, com o gado, com os cavalos, com a pesca e com as enormes distâncias entre propriedades ajudou a criar um modo de vida muito particular.
É daí que surgem imagens profundamente ligadas à cultura regional:
o peão pantaneiro,
o berrante,
as comitivas,
a viola,
o chapéu,
a cozinha preparada durante longas jornadas
e as histórias contadas em torno da vida no campo.
A Fundação de Cultura cita justamente elementos como o peão conduzindo boiadas ao som do berrante, o chapéu de carandá, o churrasco com mandioca, o tereré, a viola e outros costumes entre as referências que ajudam a formar o folclore e o sentimento de pertencimento sul-mato-grossense.
A comitiva é muito mais que uma imagem do Pantanal
Durante décadas, conduzir o gado por grandes distâncias fez parte da realidade econômica e social da região.
As comitivas precisavam atravessar campos, rios e estradas durante vários dias.
Esse modo de vida produziu seus próprios conhecimentos, tradições, histórias e até uma gastronomia adaptada à estrada.
O cozinheiro da comitiva precisava preparar refeições possíveis dentro daquela realidade.
Os peões desenvolviam formas próprias de organização.
O berrante tinha função prática.
A relação com os animais e com o ambiente era parte da rotina.
Hoje, as transformações tecnológicas mudaram muito esse trabalho, mas a imagem das comitivas permanece como um dos símbolos da cultura pantaneira.
É um assunto que merece inclusive uma história própria — e ainda vamos voltar a ele.
Uma cultura que também se expressa através da comida
Talvez poucas coisas contem tanto sobre Mato Grosso do Sul quanto sua gastronomia.
A mesa sul-mato-grossense reúne influências indígenas, paraguaias, pantaneiras e rurais.
Peixes de água doce convivem com carnes.
A mandioca aparece de inúmeras formas.
Frutas do Cerrado entram em doces, bebidas, molhos e sobremesas.
A chipa e a sopa paraguaia dividem espaço com churrasco, pratos de peixe e receitas construídas ao longo de gerações.
A Fundação de Cultura do estado aponta ainda contribuições portuguesas, africanas, asiáticas, árabes e hispânicas para essa formação gastronômica.
Ou seja:
a cozinha de Mato Grosso do Sul é resultado do próprio processo de formação cultural do estado.
Bacuri Cozinha Regional: quando gastronomia também se transforma em resgate cultural
Em Bonito, um dos exemplos contemporâneos dessa busca por compreender e valorizar a identidade sul-mato-grossense está no Bacuri Cozinha Regional.
Sob o comando do chef Sylvio Trujillo, o restaurante desenvolveu um trabalho que vai além de simplesmente utilizar ingredientes regionais.
A proposta declarada pelo Bacuri é resgatar e valorizar a gastronomia e as tradições de Mato Grosso do Sul, transformando a experiência no restaurante em uma aproximação com a identidade cultural do estado.
Sylvio passou a pesquisar ingredientes, histórias e costumes do território e a utilizá-los como ponto de partida para uma cozinha contemporânea. O trabalho inclui referências aos peixes regionais, frutas do Cerrado, mandioca, carnes e influências indígenas, pantaneiras e de fronteira.
É uma maneira interessante de perceber que preservar cultura não significa necessariamente repetir exatamente aquilo que era feito no passado.
Também pode significar compreender uma tradição, reconhecer sua origem e permitir que ela encontre novas formas de expressão.
O trabalho de Sylvio Trujillo e uma cozinha que conta histórias
À frente do Bacuri, Sylvio Trujillo vem colocando a gastronomia sul-mato-grossense no centro da experiência.
Em 2026, por exemplo, o chef participou do Mesa Ao Vivo realizado em Campo Grande apresentando uma interpretação contemporânea da cozinha regional e abordando justamente as influências de fronteira e a identidade gastronômica de Mato Grosso do Sul.
No restaurante, a proposta também não fica restrita aos pratos.
O ambiente utiliza arte e referências culturais para aproximar o visitante de diferentes aspectos da história regional.
Dessa forma, jantar deixa de ser apenas uma pausa entre os passeios de Bonito.
Pode se transformar em mais uma maneira de conhecer o lugar visitado.
Bonito também é cultura
Para muita gente, a primeira imagem de Bonito será inevitavelmente um rio de água cristalina.
E isso faz sentido.
A natureza colocou a cidade entre os grandes destinos turísticos do Brasil.
Mas quem passa alguns dias na região começa a encontrar outras camadas.
Elas aparecem quando alguém oferece um tereré.
Quando uma fruta típica do Cerrado chega à mesa.
Quando uma história sobre as antigas comitivas é contada.
Quando se observa uma peça produzida por um artista regional.
Quando uma receita revela uma influência paraguaia.
Ou quando um restaurante como o Bacuri utiliza gastronomia, arte e memória para apresentar um pouco da identidade sul-mato-grossense.
Conhecer Bonito sem perceber essas referências é possível.
Mas percebê-las deixa a viagem muito mais completa.
Cultura não é algo parado no passado
Existe uma ideia equivocada de que falar em cultura significa necessariamente falar de algo antigo.
A cultura sul-mato-grossense mostra justamente o contrário.
Ela continua sendo construída.
O tereré continua circulando entre amigos.
Receitas tradicionais recebem novas interpretações.
Artistas transformam memórias regionais em novas obras.
Músicos misturam referências.
Chefs pesquisam ingredientes locais.
Comunidades indígenas mantêm e transformam suas próprias tradições.
Novas gerações reinterpretam aquilo que receberam das anteriores.
É por isso que conhecer uma cultura significa observar tanto aquilo que foi preservado quanto aquilo que continua mudando.
Mato Grosso do Sul é um território de encontros
Talvez uma das melhores maneiras de compreender a cultura de Mato Grosso do Sul seja abandonar a tentativa de encontrar uma única definição.
Ela não está em apenas um prato.
Não está em somente um povo.
Não pertence apenas ao Pantanal.
E também não pode ser explicada somente pela fronteira com o Paraguai.
Mato Grosso do Sul nasceu culturalmente do encontro.
Da presença ancestral dos povos indígenas.
Das fronteiras com Paraguai e Bolívia.
Da vida pantaneira.
Das comitivas.
Dos migrantes que chegaram de diferentes partes do Brasil e do mundo.
Dos rios, do Cerrado e das fazendas.
Do campo e das cidades.
E desse encontro surgiram sabores, músicas, palavras e costumes que hoje fazem parte do cotidiano.
Por isso, quando alguém visita Mato Grosso do Sul, a viagem pode começar olhando para a paisagem.
Mas vale prestar atenção também ao que está acontecendo ao redor dela.
Na roda de tereré.
Na música que toca.
No prato que chega à mesa.
Na história contada por quem vive ali.
Porque é justamente nesses pequenos encontros que a cultura sul-mato-grossense continua viva.




