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Cultura

Comitivas pantaneiras: tradição, trabalho e cultura que atravessam gerações em Mato Grosso do Sul

Conheça a história das comitivas pantaneiras, os peões, o berrante, a cozinha de comitiva e onde encontrar essa tradição em Bonito e Mato Grosso do Sul.

Por Any · 25/09/2026
Comitivas pantaneiras em Bonito MS

Uma boiada seguindo lentamente por uma estrada de terra.

Peões distribuídos em diferentes posições.

Cavalos.

Poeira.

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O som do berrante.

E, em algum ponto da jornada, uma pequena estrutura montada para preparar a próxima refeição.

Essa imagem se tornou um dos grandes símbolos do Pantanal e da cultura de Mato Grosso do Sul.

Mas as comitivas pantaneiras nunca foram apenas uma paisagem bonita.

Elas surgiram de uma necessidade real: transportar grandes rebanhos por territórios onde, durante muito tempo, estradas, caminhões e outras estruturas simplesmente não existiam como hoje.

As jornadas podiam durar dias ou semanas.

E, para atravessar campos, fazendas, rios e regiões alagadas, era necessário um grupo organizado, em que cada pessoa conhecia sua função.

Essa forma de trabalho ajudou a construir costumes, histórias, músicas, culinária e conhecimentos que ainda fazem parte da identidade sul-mato-grossense.

O que é uma comitiva pantaneira?

De maneira simples, uma comitiva é um grupo responsável por conduzir uma boiada de um lugar para outro.

No Pantanal, essa atividade ganhou características muito próprias por causa das enormes distâncias e das condições naturais do território.

Cheias e secas alteram caminhos.

Rios precisam ser atravessados.

O gado precisa ser mantido agrupado.

É necessário encontrar lugares adequados para descanso e alimentação.

E tudo isso acontece enquanto os peões permanecem vários dias longe de casa.

A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul registra as comitivas como parte importante do universo cultural pantaneiro, envolvendo costumes, modos de falar, culinária, berrante, arreios, vestimentas e diferentes conhecimentos transmitidos entre gerações.

Por isso, falar de comitiva é falar tanto de trabalho quanto de cultura.

Cada integrante tinha uma função

Conduzir centenas de animais exige organização.

Dentro de uma comitiva tradicional, os peões assumem posições diferentes em relação ao rebanho.

Há quem siga à frente indicando o caminho.

Outros trabalham nas laterais, mantendo a boiada agrupada.

Há quem permaneça mais atrás, evitando que os animais se dispersem.

E existe ainda uma função fundamental que nem sempre aparece nas imagens mais conhecidas:

o cozinheiro da comitiva.

Em viagens longas, alguém precisa chegar antes ao ponto de parada, organizar os equipamentos, acender o fogo e preparar a alimentação para o grupo.

A obra sobre as comitivas exposta no Bacuri Cozinha Regional, em Bonito, representa justamente essa divisão de tarefas, incluindo a figura do cozinheiro.

É um lembrete de que uma comitiva funcionava como um verdadeiro trabalho coletivo.

O berrante não nasceu como instrumento de apresentação

Hoje, o berrante aparece facilmente associado à imagem do Pantanal.

Mas originalmente ele possuía uma função bastante prática.

Seu som ajudava na comunicação com os peões e na condução do gado durante as jornadas.

Diferentes toques podiam auxiliar na organização da rotina da comitiva.

Com o passar do tempo, o berrante ultrapassou o trabalho rural e se transformou também em símbolo cultural.

A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul cita o peão tocando boiadas ao som do berrante entre as imagens diretamente relacionadas ao folclore e à identidade do estado.

Essa tradição continua viva inclusive entre pessoas que realmente trabalharam em comitivas.

Em Bonito, a história de Ramona Vieira de Souza é um exemplo marcante. Durante décadas, ela participou da condução de boiadas e tornou-se conhecida por atuar como ponteira e pelo domínio do berrante. Em 2025, sua trajetória foi celebrada durante o Festival de Inverno de Bonito.

Mulheres também fizeram parte dessa história

A imagem tradicional do peão pantaneiro muitas vezes é masculina.

Mas isso não significa que as mulheres estiveram ausentes das comitivas.

A trajetória de Ramona mostra justamente o contrário.

Segundo a Fundação de Cultura, ela começou ainda jovem a conduzir boiadas e ocupou durante anos uma função de liderança que, naquele período, era geralmente exercida por homens.

Outras histórias também vêm sendo registradas em documentários, livros e projetos culturais.

Preservar a memória das comitivas significa, portanto, ampliar o olhar para todas as pessoas que participaram desse modo de vida.

A cozinha viajava junto com a boiada

Dias na estrada exigiam uma alimentação adaptada à realidade do campo.

Não existiam geladeiras acompanhando os peões.

Os ingredientes precisavam ser resistentes, relativamente simples de transportar e capazes de alimentar um grupo submetido a longas horas de trabalho físico.

Arroz, carne, mandioca e outros alimentos presentes no cotidiano rural aparecem fortemente nessa tradição.

A Fundação de Cultura relaciona às comitivas parte do repertório gastronômico que hoje reconhecemos como tipicamente sul-mato-grossense.

Também está nesse universo o quebra-torto, uma refeição reforçada servida no início do dia.

Em diferentes versões, pode reunir carne, ovos, linguiça, arroz, chipa, sopa paraguaia e outros alimentos.

Se hoje alguém encontra essas preparações em restaurantes ou eventos culturais, é fácil esquecer que muitas delas estavam ligadas a uma necessidade muito prática:

alimentar quem teria uma longa jornada de trabalho pela frente.

Comitiva também significa conhecimento do território

Não bastava saber montar a cavalo.

O peão precisava conhecer o ambiente.

Era necessário entender caminhos, comportamento do gado, disponibilidade de água e alterações provocadas pelas estações.

No Pantanal, isso se tornava ainda mais importante.

A paisagem muda de maneira intensa ao longo do ano.

Áreas que podem ser atravessadas durante a seca ficam inundadas na cheia.

A condução dos rebanhos precisou se adaptar durante gerações a essas transformações.

Essa relação ajudou a construir um conhecimento prático sobre o território que não estava necessariamente registrado em mapas ou manuais.

Era aprendido acompanhando quem já conhecia o caminho.

O que mudou nas comitivas?

A modernização da pecuária, a abertura de estradas e o transporte realizado por caminhões mudaram profundamente essa atividade.

Muitos deslocamentos que antes precisavam ser feitos inteiramente a cavalo passaram a contar com outras alternativas.

Mas isso não significa que as comitivas desapareceram completamente.

Em determinadas regiões do Pantanal elas ainda fazem parte da realidade das fazendas, especialmente em situações nas quais o acesso por veículos é difícil.

Além disso, a tradição continua presente através de encontros culturais, cavalgadas, gastronomia, artesanato, literatura, música e memória oral.

Existem inclusive experiências turísticas em Mato Grosso do Sul que procuram aproximar visitantes desse universo. A Fundação de Turismo já destacou cavalgadas que acompanham atividades relacionadas ao manejo do gado e à cultura pantaneira.

Uma antiga rota boiadeira ainda pode ser percorrida em Bonito

Quem visita Bonito encontra uma conexão curiosa com essa história em um passeio que hoje é realizado de quadriciclo.

A Trilha Boiadeira utiliza um caminho que, segundo a Secretaria de Turismo de Bonito, foi usado no passado como rota de grandes expedições boiadeiras.

Hoje o cenário mudou.

Em vez dos longos deslocamentos conduzindo rebanhos, visitantes passam pela região em veículos off-road, acompanhados por guias e enfrentando diferentes obstáculos naturais.

Mas o nome da trilha guarda a memória de outra época.

Trilha Boiadeira: aventura sobre um caminho histórico

Antes da saída, os participantes recebem treinamento para condução do quadriciclo.

Depois seguem pelo percurso em uma atividade recreativa, sem caráter competitivo, atravessando uma área de terreno irregular e obstáculos.

Para muita gente, a experiência pode começar apenas como um passeio de aventura.

Mas conhecer a origem daquele caminho muda um pouco a forma de enxergá-lo.

Onde hoje passa um quadriciclo, boiadas já foram conduzidas por trabalhadores que atravessavam a região durante longas jornadas.

Essa ligação entre uma experiência turística atual e o passado rural é uma forma interessante de perceber que a história de Bonito não começa quando o município se transforma em destino turístico.

Muito antes disso, esse território já possuía estradas, fazendas, trabalhadores e histórias.

Bonito também possui uma forte relação com essa cultura

Quando se fala em comitivas pantaneiras, a primeira associação normalmente é com o coração do Pantanal.

Mas a cultura boiadeira também atravessa a Serra da Bodoquena e a história de Bonito.

A região esteve historicamente ligada à pecuária e às propriedades rurais.

Parte da memória de famílias locais está relacionada justamente ao gado, às fazendas, aos cavalos e às rotas utilizadas para o deslocamento dos animais.

É por isso que essa cultura aparece em tantos lugares da cidade.

Na arte.

Na gastronomia.

Nas histórias.

Nos festivais.

E até nos passeios turísticos.

Buga Peralta transformou a comitiva em arte

Uma das representações mais interessantes dessa cultura foi criada em Bonito pela artista Buga Peralta, nome artístico de Celair Ramos.

Buga ficou conhecida por esculturas que retratam o cotidiano e o imaginário de Mato Grosso do Sul.

Entre seus trabalhos está a Comitiva Pantaneira, construída a partir das lembranças de sua infância.

Segundo o Bacuri Cozinha Regional, Buga cresceu vendo boiadas passarem pelos lugares onde vivia. Décadas depois, essas imagens se transformaram em esculturas de bois, cavalos e trabalhadores que recriam a movimentação de uma comitiva.

Seu trabalho já alcançou diferentes espaços dentro e fora do estado.

Uma de suas representações de comitiva, composta por mais de uma centena de peças, integrou inclusive o cenário da novela Pantanal.

A Comitiva Pantaneira que ocupa uma parede do Bacuri

Quem entra no Bacuri Cozinha Regional, em Bonito, encontra uma dessas histórias transformada em arte.

Uma obra de Buga Peralta dedicada à Comitiva Pantaneira ocupa um espaço de destaque no restaurante.

São figuras que representam os animais e os diferentes personagens envolvidos na jornada.

Não está ali apenas como elemento decorativo.

A obra faz parte da proposta do Bacuri de utilizar também arquitetura, arte e ambientação para apresentar ao visitante elementos da cultura de Mato Grosso do Sul.

É uma experiência interessante porque conecta duas histórias ao mesmo tempo.

Na parede está a comitiva.

Na mesa aparecem ingredientes e receitas que também possuem relação com aquele universo.

Quando a arte complementa aquilo que está no prato

O Bacuri Cozinha Regional, sob o trabalho gastronômico do chef Sylvio Trujillo, tem desenvolvido uma proposta de resgate e interpretação da cultura sul-mato-grossense.

Isso aparece na escolha de ingredientes, nas receitas e nas histórias que inspiram o cardápio.

Mas aparece também no próprio ambiente.

Madeiras, objetos e trabalhos de artistas regionais foram escolhidos para construir um espaço que dialogue com a identidade de Mato Grosso do Sul. Entre os artistas presentes estão Buga Peralta e outros nomes da produção local.

Diante da Comitiva Pantaneira de Buga, fica fácil perceber que gastronomia e arte estão contando partes da mesma história.

Uma comitiva também pode ser entendida através da comida

Quando o Bacuri trabalha referências ligadas às comitivas, a gastronomia ganha uma camada diferente.

Carne deixa de ser apenas um ingrediente.

Ela remete à pecuária.

O arroz carreteiro remete aos deslocamentos e à alimentação no campo.

A mandioca ajuda a contar a relação entre diferentes povos e o território.

O quebra-torto fala sobre uma rotina que começava cedo.

Até a forma de preparar e conservar alimentos pode revelar como as pessoas viviam antes da refrigeração moderna.

Por isso, a gastronomia se tornou uma ferramenta importante para preservar essas memórias.

Não porque as receitas precisem permanecer exatamente iguais.

Mas porque seus significados podem continuar sendo contados.

A cultura das comitivas continua inspirando Mato Grosso do Sul

Essa tradição aparece hoje de muitas formas.

Na música regional.

No artesanato.

Na fotografia.

Nas histórias familiares.

Nas cavalgadas.

Nos encontros de comitivas.

Nos pratos preparados por cozinheiros.

E nas obras de artistas como Buga Peralta.

Em 2025, por exemplo, uma exposição nacional dedicada ao artesanato pantaneiro teve Buga Peralta como curadora, reunindo trabalhos inspirados nas paisagens e modos de vida de Mato Grosso do Sul.

Isso mostra algo importante:

uma tradição não precisa permanecer exatamente como era para continuar viva.

Ela pode ganhar novas linguagens.

Do cavalo ao quadriciclo, o caminho continua contando histórias

Talvez a Trilha Boiadeira, em Bonito, seja uma boa metáfora dessa transformação.

O caminho permanece.

Mas quem passa por ele hoje pode estar sobre um quadriciclo.

A finalidade mudou.

O território mudou.

A tecnologia mudou.

Ainda assim, o nome da trilha mantém uma referência ao passado.

Quem conhece essa história passa a enxergar aquela estrada de maneira diferente.

Não apenas como um percurso de aventura.

Mas como parte de uma paisagem que já foi atravessada por grandes expedições de boiadeiros.

Muito mais que peões conduzindo gado

Reduzir as comitivas pantaneiras à imagem de homens montados a cavalo seria perder boa parte de sua riqueza.

Ali existem conhecimentos sobre território.

Organização de trabalho.

Culinária.

Música.

Instrumentos.

Linguagem.

Memórias familiares.

Participação de mulheres.

Relação com o gado.

E uma forma de viver que ajudou a construir a identidade de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul.

Parte dessa realidade mudou.

Outra parte permanece.

E muito dela continua sendo reinterpretado pelas novas gerações.

Onde encontrar essa cultura durante uma viagem por Bonito?

Ela pode aparecer em diferentes momentos.

Na Trilha Boiadeira, percorrendo um antigo caminho utilizado por expedições boiadeiras.

No Bacuri Cozinha Regional, observando a Comitiva Pantaneira criada por Buga Peralta enquanto conhece sabores e histórias do estado.

Durante eventos culturais, quando o berrante volta a ser ouvido.

Na conversa com moradores que possuem familiares ligados à vida nas fazendas.

Ou simplesmente observando os elementos rurais que continuam presentes em uma cidade que hoje recebe visitantes do mundo inteiro.

Porque antes de Bonito ser conhecido pelas águas cristalinas, essa região já tinha muita história.

Uma tradição que continua caminhando

As antigas comitivas percorreram milhares de quilômetros conduzindo gado por Mato Grosso do Sul.

Hoje, muitas dessas estradas são diferentes.

Algumas foram pavimentadas.

Outras se transformaram em trilhas.

Caminhões assumiram grande parte do transporte.

E o modo de trabalhar mudou.

Mas aquilo que nasceu dessas jornadas continua presente.

No som do berrante.

No arroz preparado no campo.

Nos causos.

Nos cavalos.

Na arte de Buga Peralta.

Na parede do Bacuri.

E até em uma antiga rota boiadeira que hoje recebe visitantes sobre quadriciclos.

As comitivas pantaneiras podem ter surgido por uma necessidade de transporte.

Mas acabaram deixando algo muito maior pelo caminho:

uma parte fundamental da cultura e da memória de Mato Grosso do Sul.