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Cultura

Buga Peralta: a artista que transforma memórias do Pantanal em arte

Conheça Buga Peralta, artista de Bonito que transforma comitivas, paisagens e memórias do Pantanal em obras que levam a cultura de Mato Grosso do Sul pelo Brasil e pelo mundo.

Por Any · 03/11/2026

Bois seguindo por uma estrada.

Cavaleiros conduzindo a comitiva.

Peões ocupando diferentes posições.

O cozinheiro responsável por alimentar o grupo.

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Cenas que durante décadas fizeram parte do cotidiano do Pantanal e da vida rural de Mato Grosso do Sul hoje reaparecem em pequenas esculturas moldadas à mão.

Por trás delas está Buga Peralta, artista sul-mato-grossense que transformou lembranças de infância e referências do território em uma obra profundamente ligada à identidade do estado.

Seu nome é Celair Ramos Peralta.

Mas foi como Buga que ficou conhecida.

Artista autodidata, ela encontrou na argila uma maneira de preservar histórias que poderiam existir apenas na memória de quem viveu aquele período.

E suas comitivas acabaram viajando muito mais longe do que aquelas que um dia inspiraram seu trabalho.

Uma artista que nasceu cercada pelas referências que mais tarde levaria para a arte

A história de Buga está profundamente conectada à Serra da Bodoquena.

Ela nasceu em 1967, na região da aldeia Tomásia, na Reserva Indígena Kadiwéu, e construiu sua trajetória artística em Bonito.

Muito antes de suas obras chegarem a exposições e grandes eventos, as imagens que mais tarde definiriam seu trabalho já faziam parte de sua vida.

Boiadas.

Cavalos.

Peões.

Fazendas.

Estradas.

Natureza.

Pantanal.

Quando criança, Buga observava as comitivas passarem pelos lugares onde vivia.

Décadas depois, aquilo que havia ficado guardado na memória começou a tomar forma em suas mãos.

Antes da argila, vieram a costura e outros materiais

Buga não construiu sua trajetória a partir de uma formação acadêmica tradicional em artes.

Ela é autodidata.

A costura foi uma de suas primeiras formas de criação e, durante sua trajetória, passou também por diferentes materiais, reaproveitamento de objetos, madeira, porcelana, cerâmica e bordados.

No início dos anos 2000, decidiu dedicar-se de maneira mais intensa à arte.

Foi experimentando.

Criando.

Aprendendo com o próprio trabalho.

Até encontrar na argila uma linguagem especialmente adequada para aquilo que queria contar.

E foi nela que suas memórias das antigas comitivas começaram a ganhar corpo.

Quando uma lembrança de infância virou Comitiva Pantaneira

As comitivas se tornariam uma das marcas mais reconhecidas do trabalho de Buga.

Cada conjunto reúne pequenos personagens que, quando colocados lado a lado, reconstroem uma cena inteira.

Bois.

Cavalos.

Peões.

O ponteiro.

Trabalhadores responsáveis pelas laterais e pela retaguarda da boiada.

O cozinheiro.

A obra não apresenta apenas animais atravessando uma paisagem.

Ela representa uma organização de trabalho e um modo de vida que ajudaram a construir parte da história rural de Mato Grosso do Sul.

É por isso que observar uma comitiva criada por Buga muitas vezes desperta algo além da admiração estética.

Desperta lembrança.

Arte que encontra a memória de outras pessoas

As comitivas fazem parte da história de muitas famílias sul-mato-grossenses.

Alguém teve um avô que trabalhou conduzindo gado.

Um pai que viveu em fazenda.

Um tio que tocava boiada.

Uma família que cresceu acompanhando o movimento das comitivas.

Quando essas pessoas encontram as pequenas figuras produzidas por Buga, a obra deixa de contar apenas a história da artista.

Passa a encontrar a história de quem está olhando.

Talvez esteja aí uma das maiores forças de seu trabalho.

Buga transforma uma memória pessoal em uma memória coletiva.

Um trabalho feito peça por peça

O resultado pode parecer simples quando observado pronto.

Mas cada figura exige várias etapas.

A argila precisa ser preparada.

Cada peça é modelada individualmente.

Depois precisa secar.

Passa pela queima.

Recebe acabamento.

E finalmente encontra seu lugar dentro de uma composição muito maior.

Uma única comitiva pode possuir dezenas ou centenas de elementos.

Em alguns trabalhos, Buga passa meses construindo uma instalação.

Essa repetição cuidadosa também ajuda a reproduzir algo essencial à própria imagem de uma boiada:

o movimento coletivo.

Uma pequena vaca isolada pode ser apenas uma escultura.

Centenas delas seguindo a mesma direção passam a contar uma história.

A comitiva chegou até a televisão brasileira

O alcance do trabalho de Buga aumentou ainda mais quando uma de suas comitivas passou a integrar o cenário do remake da novela Pantanal.

A obra foi produzida especialmente para a produção e apareceu na fazenda do personagem José Leôncio.

Com mais de uma centena de peças, representava novamente a tradicional movimentação de uma comitiva pantaneira.

Para uma artista que transformou justamente as próprias lembranças do Pantanal em arte, ver essa representação dentro de uma novela dedicada à região criou uma conexão bastante simbólica.

O trabalho nascido de memórias locais passou a ser visto por milhões de brasileiros.

Do Pantanal para Nova York

As obras de Buga também atravessaram fronteiras.

Em 2022, a artista participou da Jaguar Parade, projeto internacional que utiliza esculturas de onças-pintadas customizadas por artistas para chamar atenção para a conservação da espécie e de seus habitats.

Na obra criada por Buga, a onça recebeu referências ao desmatamento e aos incêndios florestais.

Fragmentos de vegetação, troncos queimados e outras intervenções foram utilizados para falar sobre as ameaças enfrentadas pelo Pantanal e por outros biomas brasileiros.

Depois de participar da exposição em São Paulo, o trabalho seguiu para Nova York.

A artista que encontrou inspiração observando a paisagem sul-mato-grossense passou a apresentar essa mesma paisagem — e seus problemas — para públicos muito distantes dela.

Uma comitiva de 540 peças chegou à Bienal das Amazônias

Em 2025, outro capítulo importante dessa trajetória levou novamente a cultura de Mato Grosso do Sul para uma grande exposição.

Buga foi selecionada para a 2ª Bienal das Amazônias, realizada em Belém.

Para a mostra, produziu uma grande instalação representando uma comitiva.

A obra reuniu aproximadamente 540 peças e ocupava cerca de 3,5 metros de comprimento.

Foram meses de produção.

O resultado levou para uma bienal de arte uma cena profundamente relacionada ao cotidiano e à memória pantaneira.

A escolha mostra como aquilo que muitas vezes é tratado simplesmente como tradição ou artesanato regional também pode ocupar espaços importantes da arte contemporânea brasileira.

Arte popular pantaneira

Buga define seu trabalho a partir da própria identidade regional.

Sua inspiração vem da cultura, da paisagem, da natureza e das pessoas de Mato Grosso do Sul.

Por isso, suas obras dificilmente poderiam ter surgido exatamente da mesma maneira em outro lugar.

Elas dependem do território.

As comitivas dependem da história da pecuária.

As onças remetem ao Pantanal.

Os materiais, formas, animais e personagens carregam referências do estado.

É arte que não tenta esconder de onde veio.

Pelo contrário.

É justamente a origem que lhe dá personalidade.

Buga também ajuda a levar outros artistas de Mato Grosso do Sul para novos espaços

A trajetória de Buga passou ainda a incluir outro papel: o de curadora.

Em 2025, ela esteve à frente da curadoria da exposição Curvas Pantaneiras – Arte do Pantanal Sul-Mato-Grossense, realizada no Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, no Rio de Janeiro.

A mostra reuniu trabalhos produzidos em diferentes materiais, como cerâmica, madeira, fibras, tecidos, bordados e papel machê.

Mais uma vez, a proposta era apresentar ao público brasileiro a paisagem, o imaginário e os modos de viver de Mato Grosso do Sul.

Nesse caso, porém, Buga não estava somente apresentando seu próprio trabalho.

Também ajudava a abrir espaço para a produção de outros artistas do estado.

Em Bonito, uma comitiva de Buga pode ser encontrada no Bacuri

Não é preciso viajar para uma bienal ou exposição nacional para ter contato com seu trabalho.

Em Bonito, uma Comitiva Pantaneira de Buga Peralta ocupa um espaço de destaque dentro do Bacuri Cozinha Regional.

A escolha da obra conversa diretamente com a proposta do restaurante.

O Bacuri trabalha a gastronomia como uma forma de valorizar e apresentar a cultura de Mato Grosso do Sul.

Na cozinha aparecem ingredientes e histórias ligados ao Cerrado, ao Pantanal, às fazendas, aos rios e às diferentes influências que formaram o estado.

No ambiente, a arte continua contando essa história.

A comitiva que habita a parede do Bacuri

A obra reúne os diferentes personagens envolvidos na condução de uma boiada.

Os animais avançam.

Os peões ocupam suas posições.

E entre eles aparece também o cozinheiro da comitiva, figura fundamental nas longas jornadas pelo território.

A presença dessa obra dentro de um restaurante cria uma conexão especialmente interessante.

A comitiva representada na parede carrega uma história de trabalho, deslocamento e vida no campo.

A gastronomia servida à mesa carrega referências desse mesmo universo.

Arte e comida acabam contando capítulos diferentes de uma história semelhante.

Muito mais do que decoração

É fácil entrar em um restaurante e enxergar uma obra na parede apenas como elemento decorativo.

Mas conhecer a história de Buga muda completamente essa percepção.

Aquela comitiva nasceu de uma memória real.

Representa uma atividade que fez parte da vida de milhares de pessoas.

Carrega funções que existiam dentro das antigas jornadas.

Foi moldada por uma artista que cresceu vendo imagens semelhantes.

Nesse contexto, a obra passa a funcionar quase como uma janela.

De um lado está o visitante de hoje.

Do outro, uma parte da história de Mato Grosso do Sul.

Bonito é natureza, mas também é lugar de produção cultural

Bonito é internacionalmente conhecido pelos rios cristalinos.

Pelas flutuações.

Grutas.

Cachoeiras.

Fauna.

Serra da Bodoquena.

Mas reduzir a cidade apenas à natureza é deixar de perceber uma parte importante de sua identidade.

Também existem artistas, histórias, gastronomia, música, costumes e pessoas que transformam esse território em cultura.

Buga Peralta é um dos grandes exemplos disso.

Seu trabalho nasceu exatamente daquilo que havia ao redor.

Não precisou procurar uma identidade distante.

Olhou para a própria infância.

Para o Pantanal.

Para as boiadas.

Para a natureza.

E encontrou ali material suficiente para construir uma carreira artística.

Quando uma obra ajuda a preservar aquilo que está mudando

A vida rural mudou.

Estradas foram abertas.

Caminhões passaram a realizar muitos dos deslocamentos que antes dependiam das comitivas.

A tecnologia transformou a pecuária.

Novas gerações cresceram em contextos completamente diferentes.

Mas a arte possui uma capacidade particular:

ela consegue preservar uma imagem mesmo quando a realidade que a originou já está se transformando.

As comitivas de Buga fazem exatamente isso.

Não congelam o Pantanal no passado.

Mas lembram que determinadas práticas existiram, moldaram pessoas e ajudaram a construir a identidade do território.

De Bonito para o mundo sem deixar Mato Grosso do Sul para trás

Talvez exista uma característica particularmente interessante na trajetória de Buga Peralta.

Quanto mais longe sua arte chega, mais evidente fica de onde ela veio.

Nova York não apagou o Pantanal.

Uma Bienal não apagou as comitivas.

A televisão não apagou Bonito.

Pelo contrário.

Esses espaços serviram justamente para ampliar aquilo que sempre esteve no centro de seu trabalho:

Mato Grosso do Sul.

É por isso que conhecer a obra de Buga significa também conhecer um pouco da história do estado.

Nas pequenas figuras de argila existem peões.

Animais.

Trabalho.

Infância.

Pantanal.

Memória.

E uma artista que percebeu que aquilo que via quando criança poderia, um dia, contar a história de seu território para pessoas que talvez nunca tivessem colocado os pés nele.

Buga Peralta transforma barro em personagens.

Mas aquilo que realmente molda é algo muito maior:

a memória de Mato Grosso do Sul.