Um recipiente com erva-mate, uma bomba, água bem gelada e algumas pessoas reunidas.
Pode parecer simples.
Mas, em Mato Grosso do Sul, uma roda de tereré pode contar muito sobre a história, a fronteira e a forma como as pessoas se relacionam.
A bebida está nas casas, empresas, praças, fazendas, encontros entre amigos e até em experiências turísticas pelo estado.
Mais do que matar a sede nos dias quentes, o tereré se tornou um dos grandes símbolos da identidade sul-mato-grossense.
É uma tradição ligada à ancestralidade guarani e profundamente presente também no Paraguai, país que exerce enorme influência cultural sobre Mato Grosso do Sul.
Para quem visita o estado, experimentar um tereré pode parecer apenas uma pequena pausa entre um passeio e outro.
Mas entender o que existe por trás daquela guampa transforma o momento em uma experiência cultural.
Afinal, o que é tereré?
O tereré é preparado com erva-mate e água fria ou gelada.
A erva é colocada normalmente em um recipiente chamado guampa, e a bebida é consumida através de uma bomba.
A grande diferença para o chimarrão está principalmente na temperatura: enquanto o chimarrão utiliza água quente, o tereré é servido gelado.
Em Mato Grosso do Sul, isso combina perfeitamente com o clima.
Mas reduzir o tereré apenas a uma bebida refrescante seria deixar de lado sua característica mais importante:
ele é feito para ser compartilhado.
A própria Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul descreve o tereré como uma bebida tradicionalmente compartilhada em rodas de amigos ou familiares e reconhece essa prática como parte da identidade cultural do estado.
Uma tradição que vem dos povos Guarani
A relação entre a erva-mate e os povos originários é anterior às atuais fronteiras entre Brasil e Paraguai.
A documentação oficial do patrimônio cultural de Mato Grosso do Sul apresenta o tereré como uma herança cultural do povo Guarani, ligada ao uso da erva-mate e aos costumes desenvolvidos ao longo de gerações.
Isso ajuda a compreender por que o tereré está tão presente justamente em uma região marcada pela fronteira.
O costume atravessa territórios.
Brasil, Paraguai e diferentes comunidades da região compartilham uma relação histórica com a erva-mate.
E Mato Grosso do Sul acabou incorporando essa tradição de maneira tão profunda que hoje é difícil imaginar o cotidiano do estado sem ela.
Ponta Porã e a cultura do tereré
Se existe um lugar especialmente importante nessa história dentro de Mato Grosso do Sul, é Ponta Porã.
A cidade está na fronteira seca com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, onde os vínculos entre brasileiros e paraguaios fazem parte da vida cotidiana.
Ali, idiomas, músicas, alimentos e costumes convivem diariamente.
As rodas de tereré são um exemplo claro dessa relação cultural entre os dois lados da fronteira. A Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul destaca justamente como brasileiros, paraguaios e visitantes se reúnem em torno da bebida em Ponta Porã.
Em 2011, o Tereré de Ponta Porã foi registrado oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial Histórico e Cultural do Estado de Mato Grosso do Sul, por meio do Decreto Estadual nº 13.140.
Não é apenas uma bebida típica.
É patrimônio.
O ciclo da erva-mate também faz parte da história do estado
O reconhecimento do tereré tem relação também com a importância econômica e histórica da própria erva-mate.
A exploração dos ervais teve papel relevante na formação do sul de Mato Grosso, antes mesmo da criação de Mato Grosso do Sul.
A Fundação de Cultura destaca o ciclo da erva-mate como um dos processos econômicos importantes para o desenvolvimento regional e para a transformação das relações humanas e geográficas no Cone Sul do estado.
Assim, quando alguém toma um tereré hoje, existe por trás daquele hábito uma história que envolve povos indígenas, fronteiras, trabalhadores dos ervais, desenvolvimento regional e circulação de costumes entre Brasil e Paraguai.
E o tereré também chegou às comitivas pantaneiras
A bebida também encontrou espaço no cotidiano dos trabalhadores do Pantanal.
A cartilha de patrimônio cultural de Mato Grosso do Sul registra que o tereré passou a fazer parte da rotina dos peões das comitivas pantaneiras, inclusive durante longos deslocamentos pelo território.
Isso mostra como a tradição foi sendo incorporada por diferentes grupos ao longo do tempo.
Da fronteira ao Pantanal.
Dos ervais às fazendas.
Das comunidades indígenas às cidades.
O tereré passou a circular por Mato Grosso do Sul até se transformar em algo profundamente associado ao estado.
Por que o tereré é tomado em roda?
Essa talvez seja uma das partes mais importantes da experiência.
O tereré não precisa ser compartilhado para existir, mas culturalmente a roda de tereré ganhou um significado especial.
É um momento de conversa.
Alguém prepara.
Outra pessoa recebe.
A guampa circula.
Enquanto isso, surgem assuntos, histórias e brincadeiras.
Por isso, o tereré também funciona como uma espécie de convite à convivência.
A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul inclui a roda de tereré entre os costumes cotidianos que ajudam a representar o sentimento de pertencimento à cultura sul-mato-grossense.
Talvez por isso seja tão comum ver uma roda acontecendo sem qualquer cerimônia.
Pode ser no fim da tarde.
Durante uma pausa no trabalho.
Na frente de casa.
Na fazenda.
Em uma praça.
A simplicidade faz parte da tradição.
Uma bebida reconhecida também internacionalmente
A importância cultural do tereré ultrapassa as fronteiras brasileiras.
Em 2020, a UNESCO inscreveu as práticas e os saberes tradicionais do tereré na cultura do Pohã Ñana, bebida ancestral guarani no Paraguai, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
É importante entender exatamente o que foi reconhecido.
A inscrição da UNESCO é referente à tradição apresentada pelo Paraguai, incluindo os conhecimentos ligados ao preparo do tereré com o Pohã Ñana — conjunto de plantas e ervas medicinais utilizado tradicionalmente na bebida.
Ainda assim, o reconhecimento internacional reforça a profundidade histórica e cultural de uma tradição que também está intensamente presente do outro lado da fronteira, em Mato Grosso do Sul.
Tereré e a influência paraguaia em Mato Grosso do Sul
A relação entre Mato Grosso do Sul e Paraguai vai muito além da proximidade geográfica.
Ela aparece na gastronomia, na música, na língua e nos costumes.
Chipa, sopa paraguaia, polca, guarânia e tereré fazem parte dessa troca cultural.
Em muitas cidades sul-mato-grossenses, esses elementos já estão tão incorporados ao cotidiano que nem sempre são percebidos como uma influência externa.
Eles simplesmente fazem parte da vida.
O tereré talvez seja o exemplo mais evidente.
Ele possui raízes guarani e uma presença fortíssima no Paraguai, mas também se tornou parte fundamental da identidade cultural de Mato Grosso do Sul.
Quem visita Bonito também pode experimentar essa tradição
Uma viagem para Bonito costuma começar com imagens de rios cristalinos, peixes, cachoeiras e grutas.
Mas há muito mais para conhecer.
Experimentar elementos da cultura sul-mato-grossense ajuda o visitante a compreender melhor o lugar onde está.
E o tereré é uma das formas mais simples de começar.
Em alguns atrativos turísticos de Bonito, Jardim e região, essa tradição aparece naturalmente na experiência.
Não como algo criado exclusivamente para turistas.
Mas como parte da própria vida local.
Buraco das Araras: tereré acompanhado de causos
No Buraco das Araras, em Jardim, essa relação entre turismo e cultura aparece de uma maneira especialmente interessante.
O atrativo é conhecido pela grande dolina, pelas araras-vermelhas e pela observação de aves.
Mas existe também uma figura muito ligada à história do lugar: Seu Modesto.
O próprio site do Buraco das Araras conta que ele recebe visitantes para uma boa conversa e, entre uma guampa e outra de tereré, compartilha seus famosos causos sobre a vida na fazenda e a história do local.
É uma situação que resume muito bem o significado cultural do tereré.
O visitante chega para conhecer uma paisagem.
Mas, sentado para tomar uma bebida e ouvir uma história, acaba conhecendo também um pouco das pessoas daquele território.
Jardim Ecopark: um sabor regional durante o passeio
Outro lugar onde o visitante pode ter contato com o tereré é o Jardim Ecopark, também no município de Jardim.
O atrativo funciona como um espaço de lazer às margens do Rio da Prata, com estrutura para famílias, restaurante, áreas de descanso e atividades em contato com a natureza.
Durante a experiência, o tereré pode aparecer como mais uma oportunidade de provar algo profundamente ligado aos hábitos de Mato Grosso do Sul.
E existe inclusive a possibilidade de combinar Jardim Ecopark + Buraco das Araras no mesmo roteiro.
Para quem deseja conhecer um pouco mais da cultura regional, isso cria uma combinação interessante: natureza, histórias, costumes e sabores no mesmo dia.
Tereré não é apenas algo para experimentar uma vez
Para o turista, tomar tereré pode ser uma novidade.
Para quem vive em Mato Grosso do Sul, muitas vezes é simplesmente parte da rotina.
Essa diferença é importante.
A cultura não existe somente quando alguém prepara uma apresentação ou cria uma experiência turística.
Ela também está nas coisas comuns.
No objeto levado todos os dias para o trabalho.
Na erva escolhida no supermercado.
Na garrafa de água gelada preparada pela manhã.
Na roda que se forma espontaneamente.
No amigo que chega e recebe a guampa.
É justamente essa naturalidade que transforma o tereré em um símbolo tão forte.
Guampa, bomba e erva: objetos que carregam significado
Quem observa uma roda pela primeira vez provavelmente vai reparar em alguns elementos.
A guampa é o recipiente onde fica a erva.
A bomba permite beber a água que atravessa a erva-mate.
E normalmente existe uma garrafa ou térmica com água bastante gelada.
Hoje os materiais, formatos e estilos variam bastante.
Existem guampas tradicionais e versões modernas.
Bombas simples ou trabalhadas.
Garrafas personalizadas.
Ervas com características diferentes.
Mas a lógica da experiência permanece praticamente a mesma:
preparar, servir e compartilhar.
Existe diferença entre tereré e chimarrão?
Sim.
Apesar de ambos utilizarem erva-mate, são experiências diferentes.
A principal diferença percebida imediatamente é a temperatura.
Tereré: água fria ou gelada.
Chimarrão: água quente.
A própria preparação da erva também pode apresentar diferenças.
A documentação da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul registra que a erva utilizada tradicionalmente no tereré possui moagem mais grossa, enquanto outras formas de processamento são utilizadas para o chimarrão e para o chá-mate.
Culturalmente, as bebidas também desenvolveram tradições próprias em diferentes regiões da América do Sul.
Um símbolo perfeito para o clima de Mato Grosso do Sul
É difícil ignorar também um fator bastante prático.
Mato Grosso do Sul pode registrar temperaturas elevadas em diferentes épocas do ano.
Uma bebida preparada com água gelada naturalmente encontrou um ambiente favorável para se espalhar.
Mas provavelmente o calor explica apenas parte do sucesso.
Água gelada poderia refrescar.
O tereré faz algo a mais:
cria um momento.
Existe o preparo.
Existe a roda.
Existe quem serve.
Existe a conversa.
E muitas vezes o tereré dura muito mais do que a sede.
Uma porta de entrada para entender a cultura sul-mato-grossense
Quem visita Mato Grosso do Sul provavelmente encontrará atrações naturais impressionantes.
O Pantanal possui uma das maiores planícies alagáveis do planeta.
Bonito é internacionalmente conhecido pelas águas cristalinas.
A Serra da Bodoquena reúne rios, cavernas, cachoeiras e uma enorme biodiversidade.
Mas a identidade de um destino também está nas pessoas.
Por isso, uma viagem pode ganhar outra dimensão quando existe curiosidade pelos hábitos locais.
Provar chipa.
Conhecer a guavira.
Experimentar pratos regionais.
Ou simplesmente aceitar uma guampa quando alguém oferecer.
Quando alguém oferece um tereré, talvez esteja oferecendo muito mais
Essa é uma das melhores maneiras de entender a tradição.
Em Mato Grosso do Sul, oferecer tereré muitas vezes significa também oferecer tempo e conversa.
A pessoa precisa permanecer ali.
Receber a guampa.
Beber.
Devolver.
Esperar a próxima rodada.
E conversar enquanto isso acontece.
Talvez seja exatamente por essa capacidade de aproximar pessoas que uma bebida tão simples atravessou gerações e se tornou patrimônio cultural.
O tereré em Mato Grosso do Sul nasceu de uma história muito anterior às atuais fronteiras e carrega raízes guarani, influência paraguaia, memória dos ervais, presença nas comitivas e décadas de convivência cotidiana.
Hoje pode aparecer em Ponta Porã, Campo Grande, Pantanal, Bonito, Jardim ou em uma pequena roda em qualquer outra parte do estado.
Para quem mora aqui, é cotidiano.
Para quem visita, pode ser uma descoberta.
E, às vezes, para conhecer de verdade um lugar, tudo o que é preciso é sentar por alguns minutos, aceitar a guampa e participar da roda.




